24 de Abril de 2013

Report: notícias

um blog que incomoda muita gente

O jornalista e blogueiro Roberto Leite é um chato assumido. Mas, graças ao trabalho que desenvolve no blog Testando os Limites da Sustentabilidade, tem conseguido respostas que não estão no discurso oficial do mundo corporativo. Nos últimos dois anos e meio, ele se dedicou voluntariamente à leitura de mais de 70 relatórios de sustentabilidade. Ligou para SACs, falou com gestores nas empresas, escreveu para executivos. Reproduziu em seu blog os muitos questionários que enviou e recebeu nesses anos todos, sempre em busca de respostas para perguntas que o incomodavam . E ele acabou incomodando.

Hoje, Roberto diz que se cansou de ler mais do mesmo. Não atualiza a página desde janeiro, mas comenta que está esperando a nova leva de relatórios, que sai em abril e maio. “É para ver se vale a pena recomeçar”, antecipa. Será que vale? Veja trechos da entrevista que ele concedeu ao report news por e-mail, durante uma viagem de férias em abril passado:

Report news: Como surgiu a ideia de lançar o blog? Por que falar de um assunto como esse, de difícil leitura para a maioria das pessoas?

Roberto Leite: Em primeiro lugar, acho que resolvi criar o blog porque sou chato. Sempre gostei do assunto sustentabilidade e acompanho o tema desde o ano 2000. Nos últimos tempos, me incomodava a forma como a temática estava sendo tratada pelas organizações e, como sou uma pessoa curiosa, fui em busca das respostas às perguntas que me incomodavam. Liguei para vários SACs, escrevi para as empresas, mas não conseguia as respostas. Então resolvi escrever o blog para divulgar a dificuldade que eu tinha em obter as informações. Aí, sim, as respostas começaram a surgir. 

Report news:  Embora muitas empresas sejam criticadas por transformar os relatórios em peça de marketing, há aquelas que acreditam que ele seja uma eficiente ferramenta de gestão e prestação de contas. O que você acha da utilidade dos relatórios?

Roberto: O relatório é uma ferramenta interessante, que torna possível provar de maneira material e documental o discurso corporativo que muitas vezes não se sustenta somente numa frase publicitária. O relatório deve ser um material de consulta leve, claro e objetivo. Muitas empresas escrevem muito, mas não dizem nada. Outras, com clareza e objetividade, tiram todas as dúvidas.

Report news: Como você avalia os relatórios de sustentabilidade publicados no Brasil? Você vê alguma evolução nos últimos anos?

Roberto: As empresas estão melhorando, sim, noto uma queda do blá corporativo e do "gestãones" para um material mais claro e de fácil consulta. Mas isso é um processo evolutivo, que ainda vai demorar um tempo para atingir a totalidade.

Report news: O que pode ser feito para melhorar esse tipo de publicação? Quais são os méritos e as falhas de um relatório, em termos conceituais?

Roberto: O mérito de um relatório com certeza é a verdade. Uma empresa não precisa ser perfeita, basta apenas informar de maneira clara e objetiva seus erros e acertos. Um relatório é uma prestação de contas e não uma brochura de sonhos e devaneios. Acredito que o maior erro é agredir a inteligência do leitor. Hoje, é muito fácil confrontar uma informação. Por isso, não adianta ficar iludindo as pessoas com afirmações que o Google derruba facilmente.

Report news: O que você acha das diretrizes GRI e da nova versão (G4) que está para ser lançada?

Roberto: Ainda não estou completamente interado sobre a G4, mas, de modo geral, as diretrizes GRI não são muito claras em termos de resultado. Como roteiro de pergunta, ajudou a padronizar, sim, mas não ficaram claros quais dados reais e concretos devem ser respondidos em cada item. Então encontramos relatórios que afirmam que responderam as questões nível A cuja qualidade é péssima.

Report news:  Você tem acompanhado as discussões do IIRC (International Integrated Reporting Council) sobre relatório integrado? O que acha da proposta de integrar de fato as informações financeiras e não financeiras em uma mesma publicação?  

Roberto: Vejo como um avanço, mas isso só vai ter importância quando a sociedade como um todo equalizar as questões sociais e ambientais com as econômicas, algo que ainda não existe. Temo que a integração desses relatórios transformem as questões ambientais e sociais como um apêndice do relatório financeiro sem nenhuma importância. 

Report news:  A pergunta que muita gente vem se fazendo nos últimos tempos: qual é o futuro dos relatórios?

Roberto: Não existirem mais. O ideal é que as questões de sustentabilidade sejam coisas tão triviais que não haja necessidade de prestar contas. Assim, já fariam parte do processo de gestão de qualquer organização.

Report news: Você tem uma postura bastante crítica e aponta falhas de grandes empresas. Hoje em dia, é lido por muitos profissionais que trabalham com esse tipo de publicação. Como vê o alcance e a importância que as pessoas dão ao seu blog?

Roberto: Primeiramente, não vejo como falhas. Apenas pergunto o que não entendi e não ficou claro. Comecei o blog pois os SACs das empresas não funcionaram comigo. Não tinha ideia da amplitude que isso tomaria. E não vejo meu blog como algo importante na dimensão que você afirma. Eu trabalho com um público de nicho que se divide apenas em duas categorias: os chatos como eu, que se interessam pela temática, e pessoas de empresas que trabalham com sustentabilidade. Realmente, a importância do blog não me interessa muito, mas sim a possibilidade de trocar ideias. Graças a esse blog conheci muita gente e aprendi bastante.

Report news: Como as empresas reagem às suas críticas? Você acredita que elas dão a devida atenção aos seus comentários?

Roberto: Ultimamente, o retorno tem sido muito bom, acho que pelo fato de o pessoal já me conhecer. Mas no começo foi bem difícil. Já me perguntaram “por que você quer saber isso?”. E respondi: porque vocês publicaram. Só por isso. Aliás, o nome “testar os limites” vem daí. Realmente, ver até que ponto o discurso é verdadeiro. Para obter as respostas que desejava, tive de escrever para presidentes de grandes empresas. Outra coisa que vale ressaltar é que meus comentários não são para as empresas, mas para os leitores que acompanham o blog. Não tenho pretensão de ser o dono da verdade de coisa alguma.

Report news: Quais foram as principais críticas que você já recebeu? Alguns assuntos que você aborda nos posts, por exemplo, podem esbarrar na falta de conhecimento sobre o setor de atuação da empresa. Você concorda com isso?

Roberto: Já ouvi muito que não entendo do negócio. E não entendo mesmo. Se o relatório não ficou claro em explicar o negócio, então o erro não está com o leitor. Sou leigo na maioria dos assuntos e trabalho somente na falta de argumento das afirmações. Mas as principais críticas que recebo, certamente, são por causa do uso da ironia.