4 de Julho de 2013

Report: notícias

fora da curva

O ideário wiki – aquele mesmo, da Wikipedia – se expandiu. Cada vez mais disseminado, ele agora está levando os conceitos de trabalho em colaboração e soluções coletivas para diversas atividades. A próxima fronteira é a wikinomia, que pretende usar a cultura colaborativa para viabilizar projetos “fora da curva”. Além de propor meios novos para conectar pessoas e levantar financiamentos, a wikinomia também tem o potencial de ajudar na construção de uma economia mais sustentável.

No Brasil, esses ideais estão sendo postos em práticas por iniciativas como a Benfeitoria, um empreendimento social baseado em crowdfunding e trabalho coletivo, que já reuniu cerca de 10 mil pessoas colaborando em mais de 100 projetos. Veja o que o Murilo Farah, um dos fundadores da Benfeitoria e palestrante do Sustainable Brands Rio, tem a dizer sobre o assunto:

report: Quais são os objetivos e os métodos de ação da Benfeitoria?

Murilo Farah:Viabilizamos projetos de impacto positivo, ao facilitar a colaboração entre indivíduos. Qualquer pessoa pode submeter um projeto ou colaborar com outros – com dinheiro, serviços, materiais, divulgação... Para cada colaboração, há uma recompensa associada. Se os recursos necessários são obtidos, o projeto é viabilizado e os colaboradores recebem uma recompensa. Se não atinge os recursos mínimos, as colaborações são devolvidas. Essa dinâmica possibilita concretizar iniciativas que não teriam sucesso se realizadas de forma individual.

report: Pode citar alguns exemplos?

Farah: Dentre os mais de 100 projetos que passaram pela Benfeitoria, vale citar o Auire Prisma (um aparelho que faz a leitura de cores e cédulas para pessoas com deficiência visual), o Colheita Urbana (sistema de redistribuição de alimentos), o Me Salva (uma plataforma de educação em que estudantes orientam outros estudantes) e o Cine Degrau (um cinema a céu aberto feito nas escadarias da periferia de São Paulo).  

report: De que modo a cultura colaborativa pode contribuir para a construção de uma economia mais sustentável?   

Farah: A economia colaborativa, ou a wikinomia – termo criado pelo teórico Don Tapscott – traz uma forma mais inteligente de gerir os recursos globais. A economia atual tem como base a escassez e o foco no indivíduo; por isso, a crise em torno do desperdício de recursos e da resolução de problemas coletivos. A cultura colaborativa, baseada em ações e sistemas de impacto coletivo, é mais adequada para a solução de questões globais, como os da sustentabilidade.

report: A wikinomia pode ser aplicada a segmentos de negócio mais tradicionais?

Farah: Sim, qualquer empresa ou instituição pode entender e aplicar esses conceitos.  Trata-se de uma nova forma de as empresas se relacionarem interna e externamente e de enxergar seu real papel nessa nova rede global. Como qualquer mudança cultural, é difícil mensurar seus limites, mas hoje seu impacto já é estimado em mais de US$ 500 bilhões.

report: E quanto à mudança de mentalidade na sociedade?

Farah: Acreditamos que a ideia da economia colaborativa se baseia em um tripé: colaboração, criatividade e cuidado. Esse último trata de algo básico, porém esquecido: a preocupação genuína com o indivíduo, o coletivo e o mundo de forma integral. Uma cultura mais colaborativa resignifica o papel do indivíduo e empodera as pessoas de uma forma cada vez mais contundente. Isso impacta a forma como as instituições estão hoje constituídas: governo, empresas e universidades. Não faz mais sentido a existência de um governo que não seja permeável aos interesses coletivos de forma direta. Ou de empresas que se distanciam de quem os sustenta, ou de universidades que ainda são vistas meramente como espaços físicos de geração e difusão de conhecimento. Todas essas instituições precisam ser revistas, se quiserem continuar existindo. É uma mudança estrutural e irreversível.