27 de Agosto de 2014

Report: notícias

por um ambiente financeiro mais responsável

Dentro do universo de investimentos, o setor financeiro tem a possibilidade de ter um papel muito mais efetivo quando se fala de sustentabilidade. Envolvido com diversos elos da sociedade, o poder mobilizador do segmento ultrapassa suas fronteiras e pode afetar diretamente os cidadãos. A atuação do setor no engajamento de empresas e instituições pela adoção de práticas socioambientais mais responsáveis também reduz os riscos dos negócios, trazendo segurança e rentabilidade agregada.

Esse assunto é tema do livro Sustentabilidade nos Negócios do Setor Financeiro: Avaliação do Risco Socioambiental na Decisão de Crédito, de Victorio Mattarozzi, sócio-diretor da Consultoria Finanças Sustentáveis*, que conversou com a Report sobre o lançamento.

report: Em seu novo livro, você busca apresentar o papel do setor financeiro na promoção do desenvolvimento sustentável.  Pode dar alguns exemplos desse papel?

Victorio Mattarozzi: Por se relacionarem com todos os segmentos da sociedade, as instituições financeiras têm um poder de influência que pode abranger a gestão da sustentabilidade nos negócios de seus clientes. Se, nesse sentido, a responsabilidade dessas instituições é enorme, as oportunidades daí decorrentes são da mesma magnitude.

Isso porque, refletindo a realidade brasileira, a percepção dos bancos sobre o risco socioambiental em seus negócios acompanha as exigências da sociedade e a própria legislação ambiental nacional. O desmatamento de áreas protegidas, por exemplo, agravado pelos complexos problemas fundiários existentes em diversas regiões, expõe também os bancos a riscos financeiros e de reputação. Isso ocorre, especialmente, em função dos financiamentos concedidos ao setor do agronegócio, um dos que mais diretamente impacta comunidades e o meio ambiente – uma vez que, para o banco, os resultados financeiros e de reputação dependem da maneira como a empresa beneficiária dos financiamentos atua.

Assim, as instituições financeiras estão percebendo a necessidade de se colocarem na linha de frente da gestão da sustentabilidade por meio da avaliação dos riscos socioambientais nos negócios de seus clientes, já que os custos ambientais e sociais que os afetam também recaem sobre seus próprios negócios.

report: Qual será o principal desafio do setor financeiro em um futuro próximo e como a mudança de postura pode auxiliar as instituições na superação?

Mattarozzi: Adaptar-se a um mundo profundamente transformado, sobretudo pelas mudanças climáticas, é o maior desafio deste século. As instituições financeiras precisam identificar quais empresas estão mais expostas aos riscos associados a essas mudanças; quais estão, desde já, concentrando esforços para lidar com as transformações trazidas pelas alterações do clima; e quais estão mais atrasadas na direção da baixa emissão de carbono e do uso eficiente de recursos naturais.

Presentemente, o peso dado aos riscos e oportunidades socioambientais no processo de decisão de negócios das instituições financeiras é ainda muito limitado. Em grande parte isso pode ser explicado pelas dificuldades em entender e estabelecer a materialidade financeira das decisões associadas a tais riscos e oportunidades.

report: E como elas lidam com os riscos e oportunidades?

Mattarozzi: Um número ainda muito limitado de instituições financeiras utiliza ferramentas de análise e quantificação dos riscos e oportunidades socioambientais como parte da decisão de negócios.

Em termos da gestão dos riscos e oportunidades socioambientais no setor financeiro brasileiro, o Rabobank Brasil se destaca com a sua política de crédito socioambiental para o agronegócio. Verifica-se que a adoção de critérios para avaliação do risco socioambiental no processo de decisão de crédito não é um fator limitador de negócios. Pelo contrário, ao considerar as questões socioambientais as instituições financeiras não apenas reconhecem sua vulnerabilidade em relação aos impactos dessa natureza, mas, sobretudo, têm a oportunidade privilegiada de desenvolver novos produtos financeiros e gerar valor ao negócio.

report: Qual o impacto da Resolução 4.327 do Banco Central, que estabelece diretrizes para implantação de política de responsabilidade socioambiental pelas instituições financeiras?

Mattarozzi: O tema desse meu novo livro se insere no contexto desse recente Resolução, que resultou do processo de diálogo do BC com as instituições financeiras sob sua regulamentação e fiscalização.  As instituições consideraram que o BC deveria atuar como idealizador e indutor de boas práticas socioambientais no setor financeiro. A Resolução veio, então, ao encontro desse objetivo, para garantir a utilização de padrões mínimos de gestão dos riscos e oportunidades socioambientais e de transparência de informações quanto aos resultados obtidos a partir da implantação desses padrões.

report: Algumas grandes empresas tentam promover a sua visão de sustentabilidade em suas cadeias, mas com capacidade de engajamento limitada. Em sua avaliação, como o mercado financeiro pode ajudar a suprir essa lacuna no investimento ou tomada de crédito?

Mattarozzi: É essencial que o setor financeiro inclua a perspectiva sustentável em sua cultura e em todo o espectro de negócios, a fim de não só exercer seu papel de indutor de práticas sociais e ambientalmente corretas, como, também, capturar as oportunidades abertas pela necessária transição para uma economia de baixa emissão de carbono e eficiente consumo de recursos naturais.

De fato, inventariar e reduzir emissões de carbono, gerir o suprimento e a qualidade da água e responsabilizar-se pelos resíduos pós-consumo onera os processos produtivos tradicionais. Mas muito mais oneradas são as empresas expostas às críticas e ações da sociedade, em razão de problemas que afetam sua reputação. Assim, é mais compensador engajar-se o quanto antes na gestão sustentável.

*Victorio Mattarozzi atua na área de sustentabilidade desde 2003, quando implantou e coordenou o sistema de gestão socioambiental do Unibanco (atual Itaú-Unibanco), onde também trabalhou nas áreas de análise de investimentos, mercado de capitais e crédito. O especialista é também coautor dos livros: Desenvolvimento Sustentável 2012-2050: Visão, Rumos e Contradições; Sustentabilidade no Setor Financeiro: Gerando Valor e Novos Negócios; e Sustentabilidade nos Negócios do Setor Financeiro: um Caso Prático.