18 de Maio de 2015

Report: notícias

canto pela diversidade

 
 

Por Rúbia Piancastelli*

Hoje, dia 18 de maio, Dia Nacional da Luta Antimanicomial**, conto neste breve artigo a história do Coral Cênico Cidadãos Cantantes e alguns de seus membros que, por meio da música e da expressão corporal, buscam a promoção da diversidade e a inserção em uma sociedade que ainda enfrenta difíceis barreiras para chegar ao pleno exercício da igualdade


(foto-divulgação na página do grupo no Facebook)

Há cerca de um mês, aceitei o convite do meu amigo Vitor Paulino de Souza Júnior (de camisa branca na foto acima) para acompanhar o ensaio do grupo do qual participa – o Coral Cênico Cidadãos Cantantes. O coral surgiu das atividades dos Centros de Convivência e Cooperativa da Secretaria de Saúde do Município de São Paulo, com apoio da Associação SOS Saúde Mental, Ecologia e Cultura, e se reúne, há mais de 20 anos, em ensaios abertos semanais realizados em espaços culturais públicos de São Paulo (Centro Cultural São Paulo, de 1992-2005, e a Galeria Olido, de 2006 até hoje). Como pano de fundo para o coral, além da diversidade que pulsa no centro da capital paulistana, está o Movimento Antimanicomial, a promoção da saúde mental e da qualidade de vida por meio da arte.

Lá estava eu, na Galeria Olido, junto de uma dezena de coralistas e, dentre eles, misturavam-se interessados em arte e portadores de dificuldades mentais e outras associadas à saúde. Posso definir o encontro como uma explosão de criatividade, diversidade e de sentimentos. Cada um ali presente, com sua história, era um ponto em uma rede que compartilha o objetivo de desenvolver o potencial criativo e de transformação (interna e externa) por meio da música, com atividades de canto e dança orientadas pelo fisioterapeuta Osniel Venâncio e o maestro Julio Cezar Maluf.

“A grande missão dos Cidadãos Cantantes é a de ser provocador de encontros criativos na diversidade, de ser catador de cantos improváveis. Mas, sobretudo, almeja inscrever no imaginário popular que a cultura faz bem e é essencial à vida e deveria fazer parte da cesta básica do cidadão”, afirma Cris Lopes, psicóloga sanitarista e idealizadora do grupo, também presente nos encontros.

Cantei e conversei com homens e mulheres, alguns mais jovens e outros experientes, e cada um compartilhou um pouco da sua história, além de um grande amor pela música. Isidro Lopes, ex-militante ambiental, relatou um pouco de sua vivência e aprendizado: “Minha experiência no Coral é algo profundamente humano e de relacionamento comigo e com o outro. Tenho contato com pessoas que apresentam diversas dificuldades de saúde, exclusão social, dependência química e, convivendo e cantando com elas, tive a oportunidade de aprender a amá-las e ver a mim mesmo como um ser humano. No mundo competitivo em que vivemos o que vale é a força, a vitória, mas, no Cidadãos Cantantes, encontro uma ilha de amorosidade”. Essa ilha acolhe Isidro, Vitor, Ana Maria, Osniel, Reginaldo, Sergio, Cris, Wesley, Cláudia e Maicon, Cleuby, Ivi, Alice, Bárbara, João e outros que não tive a oportunidade de conhecer.

O grupo é aberto a todas as pessoas e o pré-requisito é o gosto pela arte e pelo encontro com o outro. “Nosso compromisso é com a heterogeneidade e, sobretudo, com as pessoas em vulnerabilidade social e de saúde, pra que se sintam chamadas a realizarem encontros na diversidade e possam cutucar e se sentirem cutucadas em seus preconceitos, temores, sonhos adormecidos, desejos abafados”, resume Cris.


Registros da minha visita ao Coral Cênico Cidadãos Cantantes, no centro de SP

Uma história de luta

Meu amigo Vitor Júnior - mais conhecido como Vitão, nasceu em 1973 e hoje mora em companhia de sua avó de 84 anos, Olga dos Santos Almeida. Em 1991, logo após completar 18 anos, sofreu um grave acidente automobilístico, enquanto trabalhava para a empresa McDonald’s. Após um coma de 20 dias, Vitor acordou e começou uma nova etapa da vida cheia de lutas: desde a difícil reabilitação física devido ao trauma de crânio encefálico que sofreu, até o combate à dor e o preconceito, que vive diariamente.

“As pessoas me veem andando por aí pensando que estou alcoolizado ou drogado, por causa das sequelas e dos coágulos que me fazem tremer e falar diferente. Também pensam que vou assaltá-las, porque sou negro. Mas há pessoas que acreditam em nosso potencial, e eu encontrei um lugar onde pude ter esperança. Pude me tornar um ator e músico e fazer o curso de comunicação para radialistas. Pude ser visto com outros olhos. Encontrei uma nova família”, conta Vitor, que em 2001, encontrou o grupo Cidadãos Cantantes. Vitor canta e atua, estuda informática e está no último ano do curso de libras. Continua com seu tratamento na Unidade Básica de Saúde na Rua Humaitá, Bela Vista.

Agenda

(vale a pena ir ao ensaio às quartas-feiras, das 10h às 13h, na sala Vitrine da Galeria Olido-SP)

 

+ Assista a um dos vídeos do Coral: Apresentação no CCSP

 

*Rúbia Piancastelli faz parte da equipe de Conteúdo da report, estuda piano e gostaria de voltar a cantar em um coral

**A data 18/05 remete ao Encontro dos Trabalhadores da Saúde Mental, ocorrido em 1987, na cidade de Bauru (São Paulo), que por sua vez é um movimento ligado à Reforma Sanitária Brasileira, da qual resultou a criação do Sistema Único de Saúde (SUS). Um dos processos derivados do movimento foi a Reforma Psiquiátrica, definida pela Lei 10216 de 2001 (Lei Paulo Delgado). A partir deste marco o modelo de Atenção à Saúde Mental foi reformulado, transferido o foco do tratamento que se concentrava na instituição hospitalar para uma Rede de Atenção Psicossocial, estruturada em unidades abertas de serviços comunitários.