22 de Setembro de 2015

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Ética, inovação e mensuração de impacto: destaques da Ethos 360º

Em seu primeiro dia de programação, a Conferência Ethos 360º apostou em debates cruciais para o enfrentamento do cenário político, econômico e socioambiental do Brasil. Assuntos como mensuração de progresso social, combate à corrupção, eficiência em serviços, pegada ambiental e sustentabilidade na cadeia de valor são destaque no evento, que transcorre até amanhã (23) no World Trade Center, em São Paulo.

Já na abertura, mediada por Jorge Abrahão, diretor-presidente do Instituto Ethos, e Celina Carpi, do Conselho Deliberativo da instituição, o tema ética e corrupção foi abordado nas palavras de Andreas Pohlmann, jurista e sócio do Pohlmann & Company, e de Fausto de Sanctis, desembargador do Tribunal Regional Federal.

“Negócios e compliance devem caminhar juntos, e não competir como forças contrárias”, disse Pohlmann, que já atuou como diretor de compliance na Siemens e hoje participa de um comitê independente de governança da Petrobras, estabelecido como resposta às investigações da Operação Lava Jato. “Devemos ter um olhar abrangente sobre a aceitação desse tipo de prática e sobre a necessidade de termos lideranças, dentro das empresas, que dão o exemplo de como conduzir os negócios de forma ética, independentemente das circunstâncias”, afirmou.

Fausto de Sanctis, por sua vez, sinalizou as oportunidades abertas pelas investigações federais para a mudança do ambiente de negócios do País. “A prisão de empresários e políticos envolvidos em atividade ilícita abre um precedente para finalmente eliminarmos as estruturas legitimadas da atividade criminosa e restaurar a confiança no Brasil”, argumenta. “Devemos ficar atentos para que nenhum tipo de força atue no sentido de constranger as investigações e denúncias”.

Nas demais sessões, temas como ética no esporte, gestão de cadeias de fornecimento, gerenciamento de crises, diversidade de gênero, empreendedorismo, mobilidade urbana e o crescimento de pequenas e médias empresas ganharam enfoque, com representantes de empresas, organizações não governamentais e instituições setoriais do Brasil e do exterior.

Confira a programação do segundo e último dia da conferência aqui

Agenda pós-2015 em debate

Em uma apresentação sobre a agenda pós-2015 para o desenvolvimento sustentável, Achim Steiner, diretor executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), destacou o papel do Brasil no desenvolvimento de tecnologias de eficiência energética e baixo carbono. “As oportunidades futuras do País estão alinhadas à nova economia, justamente por conta dos desafios e soluções que surgem por aqui de forma constante, envolvendo infraestrutura, energia e agricultura, entre outros setores”.

Segundo Steiner, as propostas que o Brasil apresentará na 21ª Conferência das Partes (COP 21) da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, em Paris, demonstrarão seu potencial de estar à frente de outros líderes emergentes em temas como tecnologia, inovação e controle da pegada de carbono. “As metas de desenvolvimento sustentável já são a prova de que temos uma preocupação global com alguns temas. Mas o foco e o olhar locais são essenciais para que cada região contribua conforme suas necessidades e sua expertise”, afirmou, mencionando os recém-lançados Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Medindo o progresso social

Outra sessão relevante foi a de Michael Green, diretor executivo do Social Progress Imperative – responsável pelo desenvolvimento do Social Progress Index (SPI), métrica que combina diferentes indicadores e dados para mensurar o nível de bem-estar social de comunidades, municípios e territórios. Apresentando diferentes visões para o desempenho de países como Brasil – 42º colocado no ranking global do SPI, com pontuação 70,89 –, Green discutiu de que modo o SPI permite mais do que a visualização de um ranking global.

“O índice permite visualizar a posição de um país em comparação com outras economias no mesmo estágio de desenvolvimento – ou seja, vendo se, independentemente de sua posição no ranking mundial, o país está avançando na melhoria de seus padrões de vida”, explicou. “Por meio dele, vemos que países como os Estados Unidos estão, em comparação com outras economias maduras, vivendo um progresso mais lento do que o próprio Brasil, comparando este a outros países emergentes”.

Ao fim, o líder do Social Progress Imperative apresentou aplicações práticas do SPI no contexto brasileiro – resultado de parcerias entre governos, ONGs e empresas como Natura e Coca-Cola, em projetos de avaliação dos índices de progresso de comunidades e territórios da região amazônica.

Hoje, a Progresso Social Brasil, braço da iniciativa no País, já conta com 33 parceiros institucionais. “Nosso objetivo, com essas iniciativas, foi ampliar as oportunidades de levar esse índice para a prática, para além da teoria – ou seja, transformar o diagnóstico em planos de ação para cada região, considerando seus pontos fortes, suas fraquezas e seus desafios locais”, concluiu Green.

Como inovar em tempos de crise

No painel “A inovação aberta e o capital de risco corporativo”, representantes do Bradesco, da Embraer, da Microsoft e de instituições de ensino debateram os desafios do investimento em inovação – seja em novos negócios e empreendedores, seja no interior das grandes empresas. “Hoje, vemos que a cada dia a inovação se torna mais estratégica para que as corporações renovem seu jeito de atuar”, diz Silvia Valadares, chefe da comunidade de startups da Microsoft Brasil. “É da diversidade que nasce a inovação – seja capturando e investindo em negócios alinhados à nova economia, seja atraindo talentos capazes de atualizar o pensamento das organizações”.

Os limites da inovação, considerando a estratégia de cada empresa e o atual cenário de retração da economia, também ganharam ênfase no discurso dos participantes. “Independentemente do cenário atual, devemos lembrar que investir em inovação significa garantir o futuro dos negócios, sua sintonia com os novos valores e expectativas da sociedade”, diz Marcelo Frontini, diretor departamental da área de Pesquisa e Inovação do Banco Bradesco.

“Claro que devemos ser responsáveis no aporte de capital, como em qualquer investimento. Mas um momento de crise é crítico para decidir para onde se quer ir, e, também, para o público reconhecer se uma empresa valoriza a inovação de fato ou se recua diante de restrições temporárias”, complementou Peter Seiffert, líder da área de Corporate Venture Capital da Embraer. “Momentos de enfrentamento de desafios são exatamente a hora de buscar soluções diferenciadas. Inovar é, também, reduzir custos e orientar o negócio para o crescimento”.

Hora certa para responder às crises

Em tempos de crise econômica e política no Brasil, a palestra “Inteligência em gestão de riscos e antecipação a crises”, conduzida por Juan Duque, sócio da área de consultoria em gestão de riscos da Deloitte nos Estados Unidos, foi uma das mais concorridas da programação da tarde.

A palestra apresentou os dados de uma pesquisa da Deloitte que envolveu a consulta a 95 executivos e líderes empresariais – mais de 30% deles com nível de CEO ou chairman –, apontando as principais dificuldades das organizações à hora de monitorar riscos e antecipar crises. Entre as barreiras estão a falta de clareza sobre a natureza das crises, os sinais fracos de sua aproximação, o envolvimento da cadeia de valor nos fatores que as geram e o uso de métodos tradicionais para gerenciá-las.

“Pensar fora da caixa na gestão de riscos e de crises é absolutamente necessário para enfrentar situações adversas. Não adianta reproduzir procedimentos-padrão”, afirmou Duque. Diferentemente dos tipos de crise, os riscos identificados pelos executivos são considerados nas decisões de negócios. “Notamos que a gestão de riscos é presente na maioria das empresas, mas a preparação para crises é uma exceção”, concluiu.